Política e eleições em Bruzundanga.



Há mais de 2300 anos, um pensador grego chamado Aristóteles afirmava, em sua obra Política, que “o homem por natureza é um animal político. ” Muitas foram as interpretações dessa tese. Talvez a mais importante (na minha humilde visão), seria a de que o homem necessita naturalmente do outro para sobreviver, ou seja, só tem sentido falar em humanidade se falarmos em coletividade, e nesse sentido a política seria o meio mais eficaz para desenvolver e consolidar racionalmente essas relações, essas interações, essa interdependência. Em outras palavras só tem sentido falar em humanidade se levarmos em consideração a política. Estamos em pleno século XXI, ou seja, 2300 anos depois da afirmação de Aristóteles e em pleno ano eleitoral. Nesse intervalo de tempo esperava-se que o homem, a humanidade e a política tivessem evoluído. Grande engano. O animal político de Aristóteles tornou-se mais animal (no sentido mais literal) do que político. Vamos pegar como exemplo uma  cidade do Seridó Potiguar (vamos chama-la de Bruzundanga, para homenagear Lima Barreto) e fazermos um exercício de análise da política como espaço de interação, de construção de relações e acima de tudo como ferramenta de consolidação racional da vida em comunidade. Pois bem, em plena disputa eleitoral nos deparamos com uma espécie de arena de batalhas, onde dois grupos políticos se atacam mutuamente: não existem propostas de governo, mas agressões, não existem debates, mas insultos, não existem diálogos, mas xingamentos e chantagens. De nada interessa a comunidade e seu povo, é apenas uma disputa insana por poder. O que esperar desses grupos, que se revezam no poder há mais de 40 anos? (Será que estamos sendo radicais com esses representantes?)  A melhor a aposta seria o povo. Numa democracia essa é a única alternativa aceitável: a vontade soberana do povo de construir seu próprio destino. Até aqui, nada de novo. Mas estamos em Bruzundanga! E como se comporta o povo desse lugar? Bem, o povo (A maioria, só para não generalizar) é pior de que seus representantes. As agressões, os insultos, os xingamentos, as chantagens são suas ferramentas de trabalho. Nesse período, esquecem que são irmãos, vizinhos, parentes e amigos. Classificam-se e diferenciam-se pelas cores VERMELHO (Bicudo) ou VERDE (Bacurau), nada mais importa. São totalmente manipulados e cegos, não conhecem sequer o significado de cada cor, pois se fosse o caso, a cor que uniria todo mundo seria outra, a BRANCA, que no espectro das cores é a junção de todas as cores e não é à toa que é o símbolo da PAZ. O povo nessa cidade é reunido pelos seus líderes como se fosse um “rebanho”, com chicote e com palavras de ordem. Não hesitam em atacar o seu próximo, de atropelar, de maltratar, o que é importa é causar dor, sofrimento e acima de tudo, satisfazer a vontade de seu soberano. O que importa é sua cor, o seu “lado”. Agem instintivamente, sem pensar, sem raciocinar e sem questionar. Entram e batalham sem saber o motivo, a finalidade, o objetivo, apenas guerreiam. As ruas da cidade parecem arenas de gladiadores, e que o objetivo da carnificina anunciada é a satisfação imediata e inquestionável de seus “vaqueiros” (líderes). Homens, mulheres, crianças se entregam de corpo e alma sem questionamentos, sem saber pelo que estão lutando. E o resultado de tudo isso, todos nós já conhecemos. As mesmas caras, os mesmos nomes e os mesmos investimentos (corrupção). Afinal de contas, como afirmamos no início, o animal político, tornou-se apenas animal e como tal, não tem vontade própria, a não ser a obediência cega.

Gilliard Santos
Professor de Filosofia/Sociologia.

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