Professor ourobranquense faz análise sobre a decisão do STF a respeito da Vaquejada.



Depois da recente decisão do Supremo Tribunal Federal, de que a prática da vaquejada é inconstitucional, tomando como base uma lei do estado do Ceará, os debates sobre o assunto multiplicaram-se nos mais diversos ambientes. Muitas são as revoltas e os argumentos. O principal deles é que a vaquejada faz parte de nossa cultura e de nossas tradições. Ora, isso é inquestionável. Más, a principal questão é: tudo que é culturalmente aceito é correto? Ou melhor, pelo fato de uma determinada prática fazer parte do contexto cultural de um povo, ele não deve ter limites? Ninguém responde essa questão. Pois bem, vou responder. O primeiro ponto é que, se o argumento da tradição cultural é válido, então devemos restituir a escravidão, pois essa prática fez parte da cultura de muitos povos, por muitos séculos; devemos também restabelecer os linchamentos e esquartejamentos em praças públicas, pois essa prática, fez parte dos costumes e da cultura de muitos povos, entre outros exemplos. Outro ponto a ser apontado é que, em muitos casos cultura e barbárie caminham juntas. Basta olhar para as mutilações de genitálias femininas em algumas regiões da África. São atos desumanos, mas são aceitos culturalmente. Um terceiro ponto, é bem específico da vaquejada: é uma prática que envolve tortura e massacres de animais. De repente as associações de vaqueiros e defensores dessa prática perderam a memória. Esqueceram das patas quebras por divertimento, das caldas mutiladas, dos cavalos esfacelados por esporas, dos animais presos em currais por dias sem comida e sem água (não em todos os lugares, mas em vários). Portanto, esses são alguns dos pontos que considero acertadíssima a decisão do nosso STF. Obviamente, tem um impacto econômico considerável, mas não devemos usar isso como desculpa (mais uma) para chancelar essa prática. Devemos procurar outras alternativas de esportes e de práticas culturais, nosso povo é muito criativo e resistente, não pode ficar preso a um discurso reducionista, em achar que o Nordeste só tem vaquejada. O debate é polêmico, mas servirá para aprofundar as discussões e buscar novos caminhos, tendo em vista, que, pelo teor da decisão (da inconstitucionalidade) a vaquejada já é um caminho sem volta.

Gilliard Santos
Professor de Filosofia e Sociologia

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